Siza e Souto
Podiam ser uma dupla sertaneja, não gostassem mais de betão. No Porto, são o Siza e o Souto. No país e no mundo, são o Álvaro Siza Vieira e o Eduardo Souto de Moura. Dois Pritzkers e dois amigos: nem um condomínio os separa.
Ainda há dias, quando Souto de Moura foi homenageado pela União Internacional dos Arquitetos, consta que os presentes lhe diziam duas coisas. Uma saudação e uma questão, perante a Sagrada Família de Gaudí. “Parabéns” e “Como está o Siza?”.
Não sei o que respondeu o homenageado. Mas suspeito de como está Siza: algures a desenhar num maço de cigarros Camel XXL. Até hoje, a secretária tapa-lhe a parte feia dos maços com um espaço em branco, onde desenha. Aos 93 anos, para além de fumar, continua a trabalhar.
Souto continua a ouvi-lo de ouvidos abertos. Às vezes, como a inteligência dita, para discordar dele. Trocam livros e opiniões fortes, como esta de Souto de Moura: “o feio é o contranatura”. Isto dito por um arquiteto que desafiou encostas de xisto ao projetar a piscina da Quinta do Crasto.
Trocando experiências e partilhando projetos, contaminam-se. Aculturam-se um ao outro, como a arquitetura pelo resto das artes, a começar pelo cinema. Não acredito em arte de porta fechada. Toda a arte é permeável às outras, porque a beleza é o valor universal e o fim da arquitetura é a beleza.
E a beleza é uma tensão de bem e de mal; eu - que até este texto não sabia o que era um escalímetro - contamino-me pela arquitetura. Porque persigo o belo: o belo; não o janota e o direitinho. O que, muitas vezes, está no paradoxal das grandes obras. Como a Igreja de Santa Maria, no Marco de Canaveses, em que Siza optou por não colocar uma cruz na fachada - o dramatismo dos jogos de luz diria tudo.
Foi ele que me ensinou: onde está a luz está a Cruz.


