O bem da preguiça
Lições de Albert Cossery
Por ele, nunca fazia a cama. Talvez nunca tenha mudado uns lençóis. Desde 1951, viveu no mesmo quarto do La Louisiane, em Paris, na Saint-Germain-des-Prés, no coração do que lhe era essencial: pessoas, cafés e restaurantes. Quem? Albert Cossery.
Fazia assim: acordava ao meio-dia, vestia-se de cor e dandismo, e punha-se à espera de uma mesa na Brasserie Lipp. Almoçado, lançava-se a uma mesa do café – ou Flore ou Deux Magots – para se debruçar sobre a praça e por quem lá passava. Feita a reportagem ocular, voltava para o quarto: hora da siesta espanhola.
Isto todos os dias - repetição a repetição, como um vinil estragado. E de estragado tinha pouco, antes pelo contrário. Plantou o prazer pelos cantos do seu dia-a-dia e disseminou-se pelos seus livros. Aponte esta, leitor: reza a lenda que Cossery escrevia uma frase por dia. Ao todo, deram em 8 livros, em 60 anos.
Para o egípcio, durante 94 anos, a pressa foi um tema do reino animal; não do seu. Trabalhar era contranatura: o único trabalho, digno desse nome, que teve foi na Marinha. Com o tempo, ficou claro para Cossery: aos humanos, no sentido mais fiel do termo, cabia pensar, contemplar, ironizar. E também não fazer nada.
Várias das noites de Paris faziam jus a esse mandamento. No bairro onde vivia, boémio como era, pagou e teve copos pagos por Albert Camus, Lawrence Durell, Giacometti, Juliette Greco e Roger Nimier. Fez bons amigos e boa conversa. Riu-se sem pudor, pela boca e por escrito.
Riu e troçou do que via e ouvia de mais absurdo, sempre contra as máquinas e a produtividade. Observou a sociedade moderna com escárnio, pela sua velocidade que o enjoava. Sobretudo os seus traços mais dantescos. Exemplo: o do multitasking. A loucura do dólar, que perseguia os novos-ricos com que se cruzava, e o tema do dinheiro. “Falar de dinheiro nunca enriqueceu ninguém.”
Cossery foi feito, em quase tudo, destes radicalismos. Quanto aos livros, chegou a dizer: “Se um determinado livro não tiver sobre o leitor um tal impacto que no dia seguinte ele deixe de ir ao emprego, esse livro nada vale.” Como vê, leitor, nem só a preguiça era uma boa razão para deixar o emprego.
Moral da história: há quem tente parar o vento com as mãos, e tenha sucesso.
Albert Cossery, voilà.


