Johnson, o Dr.
Se me mandassem para uma ilha deserta, sei o que levaria comigo: conservas, algumas peças de roupa e um livro de aforismos do Dr. Johnson. Samuel Johnson. Poeta, ensaísta, moralista, biógrafo, crítico literário, lexicógrafo. E um belo de um frasista.
Infetou o nosso tempo com as suas frases. “De boas intenções está o inferno cheio”. “É melhor viver rico do que morrer rico”. “Quanto mais conheço a Humanidade, menos espero dela”. “A verdadeira medida de um homem é como ele trata quem não lhe pode trazer benefício nenhum”. Pois é, leitor: muitas vezes, é o Dr. Johnson que tem na ponta da língua.
Se a verdadeira influência é penetrar a cultura, Johnson teve-a; tem-na ainda. Está gravado em crachás vendidos em Londres, com a sua frase “Quem está farto de Londres, está farto da vida”. Mudou o modo de falar inglês e de o escrever. Deu a papa a futuros biógrafos, tendo a vida contada por James Boswell, seu amigo e brilhante jurista. “Life of Samuel Johnson” tornou-se o bê-à-bá da biografia moderna, um livro que deleita qualquer um.
E foi tudo isto enquanto também foi um homem comum. Como muitos, falhou na universidade – não alcançou o grau de Direito. Gostou de gatos. Teve medo da morte. Ingeria quantidades dantescas de cafeína, acusando o vício, como um colaborador em ascensão da Goldman Sachs. No fundo, seguiu a máxima que se diz ser de Bach: sem um café pela manhã, “não se é mais que um pedaço seco de cabrito assado”. Bebia-o como bebia chá, mas anormalmente. Reza a lenda que chegava às 25 chávenas de chá. Pobre fígado.
Horas e horas de cafeína. Bebia como escrevia, e escrevia com velocidade. O seu “Dictionary of the English Language” foi feito em 3 anos, ainda que com assistentes. 2348 páginas. Escreveu-o na casa onde viveu, hoje batizada de Dr Johnson’s House, número 17 da Gough Square londrina, à época arrendada por 30 libras. A edição do seu Dicionário, que não era para qualquer bolso, custava mais que centenas de rendas de casa: rondava as 1600 libras.
Em 75 anos, com tempestade e bonança, foi pensando na virtude e na felicidade, na preguiça e no adiar das obrigações, à maneira dos grandes. Sentado à escrivaninha, foi um dos escritores mais lidos do século XVIII; sentado à mesa, foi um conversador de primeira.
Pensando bem, levava era o próprio para a ilha.



Olha, devo-lhe tanto e não fazia ideia...