Horas extra
Agosto de 2025, Leça da Palmeira
Entrou e verteu tudo. O café e o copo de água com que se engana.
Ainda ontem, ao entrar, ficou de mãos soltas aos saltos na cadeira. “Isto é carioca que se apresente?” É um merdas: deve gostar de se sentir assim, de goela alta depois da sopa e do bagaço. Vai barafustando ao vir da casa de banho.
“Traga outro, que limpo a chávena, oh Zeza”, e cheira a cinzeiro, quando está bêbado. Ele exclama e eu atendo, farta disto. Depois volto a estes cadernos, que eram para o filho da patroa, com a capa cheia de carrinhos às cores. Estavam cá embrulhados, à beira das águas, ainda a cheirar a papelaria; tirei-lhes o plástico e é aqui que vou escrevendo. Nunca ninguém deu por isso.
E gosto muito de escrever: passo o tempo e gravo tudo, para secalhar nunca mais abrir isto. Ontem apareceu a filha da Paula, a Paulinha – ficou-lhe com o nome e os olhos que se riem, pareço a avó a falar dela – que volta nas férias de verão. Anotei a cor do gancho que ela trazia no cabelo, era amarelo, contou-me que o trouxe de Carcavelos. Tenho pena que agora façam lá a praia, por cansaço do frio de Leça.
Mas, volta e meia, ela volta e passa cá no café. Não sei se por mim, se pela sandes de panado que lhe faço, com maionese de sobra. Sei como a quer. Faço-a como lha fazia na adolescência, quando se zangava com a ementa da cantina, e aparecia cá com o namorado viciado no Placard. Metia sempre dois e explicava porquê sem eu perguntar. Era assim: um para ganhar de certeza, outro a ver se dava. E depois dizia feito um galo: “eu não ando aqui a brincar, Zezinha”.
Nessas manhãs, pela pouca conversa dele, a não ser bola, a Paulinha contava-me o que se passava na escola. Um dia disse-me que a matemática era o diabo e que se devia falar de fugir dela, na missa. Fugia-lhe assim a boca para o mal, enquanto ia comendo. Seriam as tais hormonas.
É disto que vou redigindo. A Paulinha, quando volta, os miúdos a quem só reconheço meia cara, os bêbados, o chato que me pergunta se sou 91 ou 96, as pessoas que, às 16, querem mais o ar condicionado que cafés ou sandes. Alguns só se estendem na cadeira, depois dos filhos comprarem chiclas. Apercebo-me deles pela respiração com que fazem a sesta.
Ainda que admita que gosto destas horas em que só ouço os solitários e a arca dos frios. Bem ou mal, tenho que fazer comigo própria. Viro-me para dentro, quando isto está mais vazio. O pior é que o burro do Mário é burro para tudo, mas não se esquece das minhas horas extra. Hoje é sexta, não tarda põe-se na mesa lá fora, como um gato ao sol.
Nos dias em que se lembra que é viúvo, pede-me em casamento.



Excelente