Eu versus corpo
Não consigo dormir sestas; prendam-me. Melhor: eu prendo-me à poltrona. Há anos que tento e sem sucesso. Desde o final do pré-escolar, a sesta é um hábito não identificado pelo meu corpo. Tanto que a renega sempre.
Às vezes consigo. “Consigo”. A melhor tradução destas aspas está em ser enganado a cada rara sesta que consigo tirar de mim. Ao estar mais sonolento que acordado, dou vivas mentais. É desta. Só que o corpo, à maneira dos cobardes, esconde as cartas. Faz renúncia.
O corpo dá-me a sesta, para me tirar a saúde. Quarenta minutos de consolo traduzem-se num bilhete para um concerto em que uma banda composta por pontadas, dores de cabeça e moleza, entra em palco. Dito isto, o meu corpo é claro: não durmas sestas. Eu é que, vá-se saber porquê, acredito na liberdade.
Já me contaram que o segredo está no tempo. Num despertador. O problema é entrar no sono profundo e sair dele logo depois. Por isso o melhor é adaptar Dylan Thomas: não entrar tão depressa nesse sono escuro. Obediente, já testei o método despertador – e as conclusões são díspares.
Já vibrou aos 30 minutos e acordei novo em folha. Noutras vezes tocou e acordei semi-combalido, voltando à sobriedade com um lanche rápido. Noutras vezes ainda, o despertador tocou como quem anunciava a nova morte do arquiduque Francisco Fernando, em Sarajevo. Dores várias. Sensação de desconhecimento. Sabia escrever o meu nome numa folha, mas com calma, que temos tempo.
Por isso já aprendi: sestas, vão de retro. Não me enganam mais; nem com historietas de sestas gloriosas, nos sítios mais recônditos. No meio do jardim em flor, na rede, debaixo de uma nespereira, na poltrona que conta histórias de família, com a última edição do El Pais a recolher a baba. Consolo para eles; vitória do corpo sobre mim.
Costuma-se dizer que se “tira uma sesta”. Acho impreciso.
A sesta tira-me é a mim.



Deve ser mesmo a única coisa em que sou bom. Pudera eu!
Conclusão, enfia-se a sesta na cesta e não há sexta que resista.