Este calor e os outros
Sou de um sítio em que tudo vem depois do calor. Até o sair de casa: ou se sai cedo ou se sai tarde. O justo meio não existe, como Aristóteles daria conta se pusesse um pé no Douro - nunca nas pedras, que queimam.
Do Porto para cima, o dia começa indisposto. O sol nasce com ciúmes, depois do calor. Esse prolonga-se como uma traça que massa os corpos pela noite. A seminudez torna-se visível em bancos no canto das varandas. O pudor cai conforme o suor.
O alcatrão quente testa os pneus dos carros e as peles torram-se. Os ar condicionados bufam ao mínimo sinal de vida pelas casas. E com força. A poupança de energia torna-se uma abstração, como brisa correndo pelos vales, à chegada da hora de almoço.
No Douro, o calor tórrido é uma espécie de irmão bastardo de todas as famílias. Ninguém sabe com quem foi concebido, mas todos o recebem em casa, no volante do carro a queimar, nos vidros que estalam. Com gravidade, é detestado: o sol, como se sente nestes meses, só cai bem às fotos.
Ainda que nos ganhe sempre. 10-0, 11-0, 12-0, goleadas consecutivas. Não adianta o gelo nas bebidas, os banhos de rio, de mangueira. Nem o vento que aparece para, sonsamente, espalhar o quente pelas aldeias. Não há ar que nos valha.
Mas reclamamos: cultivamos esse prazer. Dizemos do calor o que Maomé não diz do toucinho. Chamamos-lhe “Penitência”, “Inferno”, “Praga”, entre outros nomes próprios de parecido teor e simpatia. Vivemos com ele, como bichos no seu mato – porque o mato é dele.
Julgo até que, por esta altura, inchamos – e não só pelas festas e comezainas. Tornamo-nos o que Eça dizia dos brasileiros: “portugueses inchados pelo calor”. E, aí, podemos trocar brasileiros por durienses: a humidade é a mesma, tal como a propensão para andar de chinelos. Da casa para a rua.
Calções idem. Calças nem na missa, com permissão do Senhor Padre e De Cima. O suor torna-se parte dos outfits com marcas cénicas pelo corpo. Os duches, repetidos como ritual ao longo do dia, lutam contra a realidade: a toalha seca de menos.
Dito tudo isto, os anos de maior calor são lembrados como vindimas. Calor 2012, Calor 2021, Calor Reserva Especial 2022 – uma qualquer noite em que ninguém dormiu, rodeado de manchas e mosquitos. Os debates quanto aos anos de pódio são, como eles, acalorados.
Todos achamos que sabemos qual o ano de maior sofrimento. Cá eu julgo que vamos sendo desmentidos pelo tempo: já sentimos a ordem estabelecer-se.
Serão, não tarda, 40 graus em cada esquina.


