Dormir no cinema
Pós-diário do dia 17 de julho de 2026
O meu diário de 17 de julho de 2026 acabou assim:
- Fui ao cinema – retrospetiva de Visconti – e adormeci por meia hora. Shame on me…
Por cerca de 30 minutos, fiz parte do pequeno exército de ronronantes do cinema. É raro dormir antes da hora certa, sobretudo no cinema. Ainda mais tendo o curto sono iluminado por Rocco e os Seus Irmãos (1960).
Falando no filme, é um drama familiar de primeira água, com um Alain Delon muito estrela e uma Claudia Cardinale muito tímida. Preferia o contrário - mas Visconti não me pediu opinião. Segundo muitos, faz parte do trio de obras-primas do realizador italiano, com O Leopardo (1963) e Morte em Veneza (1971). Não sei. Gosto tanto de Visconti que olho para a sua obra como comidas favoritas. Difícil escolha.
Sobre o bocado de filme que o cansaço me retirou, revi-o em casa, pagando o preço: pior qualidade, pior ambiente. Acatei-o. Mereci-o. E nenhum dos ronronantes, presentes em toda a sessão, a qualquer hora, pode dizer bem daqueles bancos. Nesse quesito, o Cinema Nimas deixa a mensagem bem clara: dormir é em casa; conforto é na cama.
Fui criado no hábito de ser um dos únicos da família a não dormir no cinema. Nem na infância, se bem me lembro, reservei a sesta para uma história de encantar qualquer. De todo o modo, sempre me fascinou quem vai ao cinema sabendo que irá claudicar à segunda trilha sonora. Será o seu guilty pleasure.
Pois bem: gosto muito de cinema e, por isso, um dos meus prazeres secretos é observar a gana com que quem dorme no cinema se levanta do banco, feliz e contente, para o resto do seu dia, ao final do filme. Encanta-me. Primeiro, por considerarem que vale a pena pagar para dormir ao som de atores e atrizes. Segundo, pela despreocupação.
Vejo-os com prazer, mas culpadamente. Talvez porque, para mim, duas horas de Visconti, Antonioni ou Fellini devem receber atenção, salmos e ovações; não olhos fechados e descanso intermitente. Mas há, nesse ato, um desafiar do dever que não deixo de admirar. Um protelar prazeroso – ninguém que entra numa retrospetiva de Visconti deixará O Leopardo para nunca mais.
É por acreditar nisto, nos que perdem minutos de leite e mel cinematográfico, por prazer, que escrevo esta crónica. Não os deixarei na mão – tendo sido um deles, a breve trecho, segundo o meu diário. Não escondi o crime.
Fechar os olhos a uma obra-prima é um ato de hedonismo.



Que texto mais ridículo. Umberto Ecco deve estar se remexendo no caixão.