A vida pelo ecrã
As multidões em baixa resolução
Há dias vi um concerto pelo telemóvel. O da frente. Podia ter escolhido o do lado, mas não, escolhi o da frente. Com sinceridade, leitor: fui escolhido. O ecrã, do diâmetro de um tijolo de burro, ocupava o meu campo de visão, do guitarrista ao baterista. Vi o baixista pelo canto do olho direito. Vá lá que ouvi o vocalista.
A proprietária do tijolo tremia-o conforme as ancas, no intervalo das baladas. Nas baladas, ficava imóvel. “Está do melhor, isto”. Isto, suponho eu, era o concerto. E como não estava combinado vê-lo, cá para mim prestava mais atenção ao ambiente. A banda tocava e, entre as gentes, era uma azáfama: uns conversavam, como se numa festa, outros faziam transmissões em direto.
Ao cometer este ato de sociologia, observando e analisando o que me rodeava, dei comigo a pensar em coisas agrestes. Julgamentos. Se as pessoas viriam pela banda ou pelo direito a poder dizer que tinham estado no concerto. Se vinham ouvir música ou picar o ponto. Pensei e ruminei: o resultado foi dúbio.
Depois pensei em mim. Apontei-me o dedo. “Também não ouves concertos inteiros no Youtube, que outros gravaram, com os tais tijolos?”. Acenei com a cabeça: é verdade. Devo bons momentos a iPhones, Pixels, Huaweis, Xiaomis, e toda a gama, que não conheço. Ecrãs a quem devia agradecer e não posso.
Dou um exemplo: algumas das melhores versões de músicas de John Mayer foram filmadas in loco. De ecrã ao alto, por alguém que, feito o padeiro de Adam Smith, mesmo que pelo lucro ou vaidade, permitiu que milhares vissem o que estava à frente do ecrã. Algo único. Que devia ser para a pessoa e passou a ser de muitas; eu incluído.
Mas não serei hipócrita: por mim, para um concerto, só entravam seres humanos, animais dóceis e telemóveis de teclas. Tudo o que era smart ficava fora; prefiro a burrice. O básico. Estar a olhar para alguém a tocar e a cantar. Para mim e para os vários que compraram bilhete. A partilharmos essa exclusividade em silêncio de monge, nos intervalos em que paramos de cantar as preferidas.
Nós, de preferência malvestidos e sem olhar para o lado. Nós, de preferência excessivos. A tentar adivinhar a próxima música, pela conversa do vocalista, ou o primeiro acorde. A cantá-la com força suficiente para esbarrar as cervejas da frente. Sem ecrãs que possam ser molhados. O ecrã estraga-se; a t-shirt dos Red Hot Chili Peppers suja-se.
A vida pelo ecrã sabe bem, mas não fica.
E, mal por mal, eu prefiro nódoas e cicatrizes.



Eu, que como nunca vi ennhum concerto filmado pelo telemóvel, posso mesmo julgar e condenar, certo?!